Reportagem

Estado dos recifes de coral em Pernambuco

Ilustração de recifes de coral na costa pernambucana

Os recifes de coral de Pernambuco estendem-se por cerca de 180 quilômetros de costa, formando uma faixa contínua que vai de Porto de Galinhas até áreas próximas ao arquipélago de Fernando de Noronha. Para quem observa apenas da superfície, parecem rochas cobertas de algas. De perto, revelam-se ecossistemas complexos que abrigam centenas de espécies e sustentam a pesca artesanal de dezenas de comunidades.

Nos últimos cinco anos, equipes de monitoramento registraram sinais mistos: recuperação parcial em trechos onde a pressão humana diminuiu, mas declínio preocupante em áreas sujeitas a descarte de esgoto, ancoragem irregular e eventos de branqueamento ligados ao aquecimento das águas.

O que os dados mostram

Pesquisadores do Instituto de Oceanografia da UFPE e do projeto Reef Check Brasil realizam levantamentos periódicos em pontos fixos ao longo da costa. Os indicadores principais incluem cobertura de coral vivo, diversidade de espécies, presença de algas macroscópicas (que competem com os corais por espaço e luz) e incidência de doenças.

Em Tamandaré e em trechos da APA Costa dos Corais, a cobertura coralina se manteve relativamente estável entre 2022 e 2025, com variações sazonais normais. Já em áreas mais urbanizadas próximas ao Grande Recife, os números são menos animadores: a cobertura caiu em média 12% em alguns monitoramentos, associada ao aumento de sedimentos e nutrientes na coluna d'água.

Quando o coral branqueia, ele não morre imediatamente — mas fica vulnerável. Se o estresse persistir por semanas, a recuperação se torna muito mais difícil.

Branqueamento e eventos de estresse

O branqueamento ocorre quando corais expulsam as zooxantelas — algas microscópicas que vivem em simbiose com o animal e lhe fornecem energia. Sem essas algas, o coral perde cor e fica frágil. As causas incluem elevação da temperatura da água, mudanças de salinidade e poluição.

Em março de 2024, sensores registraram anomalias de temperatura em águas rasas entre Ipojuca e Sirinhaém. Equipes de campo documentaram branqueamento parcial em colônias de Mussismilia harttii e Siderastrea stellata, espécies típicas da costa brasileira. Felizmente, grande parte dessas colônias apresentou sinais de recuperação até o final do ano — mas o evento serviu como alerta.

Pressões locais que fazem diferença

Além das mudanças climáticas globais, fatores locais amplificam ou atenuam os impactos. Entre os mais citados por pescadores e pesquisadores:

  • Esgoto e runoff urbano: aumenta nutrientes na água, favorecendo algas em detrimento dos corais.
  • Ancoragem sobre recifes: correntes e âncoras quebram estruturas coralinas que levaram décadas para se formar.
  • Pesca de arrasto e coleta irregular: remove organismos-chave e perturba o equilíbrio do ecossistema.
  • Turismo desordenado: pisoteio em áreas rasas, toque direto em corais e alimentação de peixes alteram comportamentos naturais.

Vozes da costa

Conversamos com Seu Manoel, pescador artesanal de Tamandaré há mais de 30 anos. "Antigamente, a gente via mais peixe nos recifes. Hoje ainda pescamos, mas tem que ir mais longe. O que mudou? Tem mais gente, mais barco, mais sujeira na água", relata.

A bióloga marina Dra. Fernanda Alves, que coordena monitoramento na região, é cautelosa mas não pessimista: "Temos áreas com bons índices de recuperação quando a gestão funciona. O problema é que a costa é longa e os recursos para fiscalização são limitados. Cada comunidade precisa se envolver."

O que vem pela frente

Projetos de restauração com jardins de corais e transplante de fragmentos avançam em parceria com universidades e ONGs locais. A ampliação de áreas protegidas e a melhoria do tratamento de esgoto em cidades costeiras são apontadas como prioridades por gestores ambientais.

Para o visitante ou morador que quer contribuir, as orientações práticas incluem não tocar corais, escolher operadores de mergulho certificados, não comprar souvenirs feitos de material marinho e apoiar iniciativas comunitárias de conservação. Detalhes sobre mergulho responsável estão em nosso guia prático.

Camila Ribeiro

Camila Ribeiro

Editora e repórter

Camila cobre ciência marinha e políticas de conservação no Nordeste. Formada em jornalismo com especialização em comunicação ambiental.